Ele amou a poesia da noite...
A escuridão, uma metáfora do mal, uma força negativa que os medievais temiam. Uma oposição ao que faz bem. Assim aprendi a temer a noite e a desejar transpô-la, como que a aurora fosse meu último pedido. Pelos corredores o silêncio grita sacudindo os móveis e a respiração dos fantasmas acaricia minha pele. Aprendi a temer a noite ouvindo as aves Marias que num ritual fúnebre traduzia e brevidade da vida. O bem só transita na luz... Como um Astro a evidenciar caminhos... Deus é luz do mundo, quem o segue não caminha nas trevas... Devo confessar que a poesia da lua me fez amar a noite e devagar me selou num pacto com a escuridão. Nada é mais belo que o céu barroco na clarabóia da lua, onde tudo exala mistério; as árvores, o horizonte, as montanhas, tudo se desfez e o que resta é este quadro negro. Da janela, olho para o quintal e sinto como é agradável não ver e exercito minha cegueira humana, enquanto a mente grávida de escuridão gera Deus. Não é acaso que no relato bíblico, Jesus nasceu à noite... Penso que a escuridão foi à primeira manta a envolver sua pele e o silêncio de uma noite fria a beijar seu rosto, antecipando o beijo de Maria, em reverência ao Deus menino. Jesus amou a poesia da noite e se “distanciava” de todos para encontrá-la e por meio dela, o Pai. Alguém, em uma noite foi procurá-lo para conversar... Desconforto no caminho... Insegurança... Sentidos postos a prova... Desvestido de suas verdades... Não a razão capaz... Apenas uma ideia solta, um dependente e só. O não conhecimento de Deus é uma forma estranha de estar com Ele e isso transcende a visão do meio dia. Acho que os apóstolos se enganaram ao escrever as palavras de Jesus. Ele, tão íntimo da noite, que confessava na penumbra seu amor aos homens, suas angústias... E ancorava o rosto no colo frio da madrugada e adormecia envolvido pelo mesmo manto de sua origem. Ele, não disse ser a Luz do mundo, talvez, uma estrela a apontar no céu ao ocaso, enquanto seu perfume espalhava-se com vento nas ruas tristes...; ou a lua sempre crescente no coração do homem; podendo ser ainda, o silêncio que se derramava dos astros sobre os casebres e invadia manso, os cômodos... Ou quem sabe, o nada que sempre desejo ver no meu quintal... Deus é escuridão, quem permanece na escuridão permanece em Deus.
Jesus se fez metáfora e habitou entre nós

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