A boca da noite chupou a pedra.
Casa da
Messias Nunes
Pedra
Prefiro pedra a homens.
Nela esconde o silencio do tempo:
o grilo de corpo invisível
besouro azul celeste
formigo de pele úmida.
A noite cabe na pedra.
Prefiro pedra a homens.
Nela esconde o silencio do tempo:
o grilo de corpo invisível
besouro azul celeste
formigo de pele úmida.
A noite cabe na pedra.
Prefiro pedra a homens.
Dia em cores
Calendário é dispensável.
Sete lápis de cor marcam o tempo.
Hoje é laranja, como todas as quintas.
Amanhã, cinza
Depois, verde
vermelho
vermelho
branco
roxo
e amarelo
A semana cabe numa tela.
Lembranças
Leve, ao peso de sombra que luz evoca
Um rapto de olhar
Ou vago que amor provoca.
Cicatriz de canção
Intensa e calma.
Da janela, o passado, em asas, acena.
Pequeno.
A dimensão de borboleta.
Um rapto de olhar
Ou vago que amor provoca.
Cicatriz de canção
Intensa e calma.
Da janela, o passado, em asas, acena.
Pequeno.
A dimensão de borboleta.
Corpos
Nas calçadas
distribuem-se corpos
e em túmulos
os odores dos egoístas
faz-se ouvir:
e tu, silencias a dor
chore sem barulho
que teus ouvidos
ouçam, somente eles.
Os pés se movem
Num mundo distante.
Do oposto lado
a solidão mortal
despetala a pele
e na ausência absoluta
mantém-se ainda vida.
E tu, que pensas?
Paisagem desvalida
Enfado do progresso
Que desmascara
Com mãos estendidas
Nossas bondades.
Sem palavra
e nome
Apenas inscrições soltas
nas calçadas
Cujas mãos...
Cujas mãos...
Cujas mãos...
Apenas inscrições soltas
nas calçadas
Sem nome
E palavra.
Quase ausente
O amor é breve
Um infante choro
Em querer dormir.
Alonga-se a um susto
Que soluça a alma
Na eterna distração
Do vôo.
O amor é breve
Como um perfume
Que corta a pele
E cicatriza os lábios
Um toque
Quase ausente.
Um infante choro
Em querer dormir.
Alonga-se a um susto
Que soluça a alma
Na eterna distração
Do vôo.
O amor é breve
Como um perfume
Que corta a pele
E cicatriza os lábios
Um toque
Quase ausente.
Poeta e flor
Emana flor grotesca
A perfurar-me as mãos
E no hálito sombrio
Congela meus olhos.
Em tua taça goteja minha pele
Refugio-me através de sua boca
Para o éter invisível que me abraça.
Reduza o mundo a uma cela
E escrevo nas paredes os versos
Que em brechas me exalam.
No acréscimo contínuo das batidas
O silêncio percorre as unhas no papel
E em pasmo o corpo se esvai
No néctar de uma flor absorvida.
Emana flor grotesca
A perfumar-me as mãos
E agita meus sentidos
Como vento em fim de tarde.
Despetala uma a uma
Minha canção
E no silêncio extremo
Estilo seus lábios.
Pétala bela e frágil
Como o humano que debruça sobre ti
Apesar da aparente fortaleza
A puerícia forma que entre jardins poeta
E vencida pela flor adormece.
Primavera
“As árvores voltaram a florir”
Sim! As árvores voltaram a florir!
Árvores e flores, não vi.
Imagino tamanha beleza
Porque as árvores voltaram a florir.
Ao Belo
Iludo-me com a sereia na pedra
Que numa voz divina em sons de flauta
Torna-me louco
Diante do belo, desprotegido,
Lanço-me ao mar
E possuído de incertezas
Contemplo com rosto descorado
O admirável.
Só em ti, beleza, há sentido
E na oculta presença me explica
Quando fluis acima dos nomes
Em disfarce natural dos deuses
Máscara abissal de tudo que almejo.
Olhares que ofuscam os filósofos
E entre luzes esconde-se na
Penumbra do amor
O ilógico incomodo que nos abate.
Em ti, beleza, não há sentido algum
Como não há no eterno universo
Que se move
E na planta que cresce no quintal.
O insuportável cotidiano amplia-me
A estatura de criança
Que se lambuza numa ânsia imatura
E que transita entre quedas e afagos.
Ele amou a poesia da noite...
Ele amou a poesia da noite...
A escuridão, uma metáfora do mal, uma força negativa que os medievais temiam. Uma oposição ao que faz bem. Assim aprendi a temer a noite e a desejar transpô-la, como que a aurora fosse meu último pedido. Pelos corredores o silêncio grita sacudindo os móveis e a respiração dos fantasmas acaricia minha pele. Aprendi a temer a noite ouvindo as aves Marias que num ritual fúnebre traduzia e brevidade da vida. O bem só transita na luz... Como um Astro a evidenciar caminhos... Deus é luz do mundo, quem o segue não caminha nas trevas... Devo confessar que a poesia da lua me fez amar a noite e devagar me selou num pacto com a escuridão. Nada é mais belo que o céu barroco na clarabóia da lua, onde tudo exala mistério; as árvores, o horizonte, as montanhas, tudo se desfez e o que resta é este quadro negro. Da janela, olho para o quintal e sinto como é agradável não ver e exercito minha cegueira humana, enquanto a mente grávida de escuridão gera Deus. Não é acaso que no relato bíblico, Jesus nasceu à noite... Penso que a escuridão foi à primeira manta a envolver sua pele e o silêncio de uma noite fria a beijar seu rosto, antecipando o beijo de Maria, em reverência ao Deus menino. Jesus amou a poesia da noite e se “distanciava” de todos para encontrá-la e por meio dela, o Pai. Alguém, em uma noite foi procurá-lo para conversar... Desconforto no caminho... Insegurança... Sentidos postos a prova... Desvestido de suas verdades... Não a razão capaz... Apenas uma ideia solta, um dependente e só. O não conhecimento de Deus é uma forma estranha de estar com Ele e isso transcende a visão do meio dia. Acho que os apóstolos se enganaram ao escrever as palavras de Jesus. Ele, tão íntimo da noite, que confessava na penumbra seu amor aos homens, suas angústias... E ancorava o rosto no colo frio da madrugada e adormecia envolvido pelo mesmo manto de sua origem. Ele, não disse ser a Luz do mundo, talvez, uma estrela a apontar no céu ao ocaso, enquanto seu perfume espalhava-se com vento nas ruas tristes...; ou a lua sempre crescente no coração do homem; podendo ser ainda, o silêncio que se derramava dos astros sobre os casebres e invadia manso, os cômodos... Ou quem sabe, o nada que sempre desejo ver no meu quintal... Deus é escuridão, quem permanece na escuridão permanece em Deus.
Jesus se fez metáfora e habitou entre nós
Poetas
Poetas... Pregadores incansáveis das coisas que "não existem."
Tecem na fragilidade de uma teia, abrigo de amor e medo,
a Palavra que re-inaugura a humanidade.
Tecem na fragilidade de uma teia, abrigo de amor e medo,
a Palavra que re-inaugura a humanidade.
Haikai
flor vermelha
na calçada
despetala o corpo
À beira do rio
a ponta do dedo n'água
a lua molhada dança
cidadezinha triste
a canção da chuva
baila os pássaros.
O gato
sonolento
apreende o tempo
O sol goteja o corpo
adiando a noite
enquanto a alma boceja
Por trás da vidraça
o céu cortinado
chora.
O céu negro
piscou para mim
A lua era minguante.
O vento ondeia o galho
enquanto o pássaro surfa
cortando as manhãs
A rua triste
curvas dedicadas
ao bem-te -vi
Ainda é inverno.
Saudades das tardes tristes
de amor
Sinto-me reduzido
ao quintal da minha
infância, lá tudo não era.
O berço ainda quente.
Caminho e lápide...
Bendita poesia!
Na revoada
os galhos vibram em asas
nasce o sol.
Perfume

O perfume espalhou-se pela casa
É seu corpo nu que surge no quarto
Como música triste e só.
O perfume espalhou-se pela casa
As paredes absorvem como pele sua imagem
E deitado na cama, devorado lentamente, sou ausente
E perdendo meu corpo reencontro-me em ti.
O perfume espalhou-se pela casa
Enquanto os jardins sem fragrância dormiam
E o mundo distraído girava
O perfume espalhou-se pelas mãos
e compomos o mesmo poema.
Estações
As estações fixam o corpo ao tempo em lentos passos
Adormecido como giro do sol preso a órbita invisível
O minuto fugas de brilho contorna a tarde em saudade
O mundo pelo avesso é visto da montanha em neblina
Enquanto abro o livro e leio a fragrância dos pântanos
Deita a sombra de árvore e canta a folha que se soltou
E se dilatem os olhos como dilúculo desfiando os dias
No olhar que abrevia todos os mistérios goteja o verde
Glosa os manuscritos antigos que as nuvens desenham
Em forma de ventre
enquanto o vento deságua no quintal
Sou anjo profano de áurea nua
Que se decompõe no trajeto.
Que se decompõe no trajeto.
Nas esquinas, imagens alteradas.
Sou sagrado como o olhar da virgem
E as carícias assíduas dos programas sem rosto.
Reúno sem pressa meus fragmentos e armo um monumento de equívoco.
Sem teto, moro em mim
Enquanto reviro os cômodos de ausências
Escondo-me no vazio onde não há suspeita.
Descansa branca luz sobre a mesa
A sombra das estrelas contorna os labirintos.
Nas mãos, chamas de palavras, cinzas e inverno
Narram às redes que prendem ao infinito.
Adormece o corpo lúcido
E a alma cega desliza o olhar nos objetos.
Como louco abraço a fraca luz que me olha pelas arestas.
Finjo o poema que me eleva as nuvens
E espalho como brisa ao mundo.
Sofro a dor da poesia
E cativo me equilibro na linha do horizonte.
Muros e asas
Noite clara
Céus escorrendo brilho
Nuvens escassas
Claridade que movimenta
Suave a leveza destes pós.
Sobre um objeto
Envolto de seres
Um ser cercado e livre
Repouso de corpo almejado
Muros, limites que tremem
Abalos mentais
Altura ínfima
Membros ínfimos em demasia
Potencial que contraria
Asas que residem
Viajam asterodicamente
Sistemicamente solar
Vagando em vácuo
Orbitando e colidindo
Beijando e admirando estrelas
Com luzes que insistem onde
Elas não mais existem.
Neste ser terreno
Treme o amor aos muros
O horror das asas
O calor concreto
O vento, as alturas,
As abstrações
Paixão dos pés
O orvalho.
Na janela,
Partes que me ocultam.
Muros e asas
Eu, muros e asas.
Céus escorrendo brilho
Nuvens escassas
Claridade que movimenta
Suave a leveza destes pós.
Sobre um objeto
Envolto de seres
Um ser cercado e livre
Repouso de corpo almejado
Muros, limites que tremem
Abalos mentais
Altura ínfima
Membros ínfimos em demasia
Potencial que contraria
Asas que residem
Viajam asterodicamente
Sistemicamente solar
Vagando em vácuo
Orbitando e colidindo
Beijando e admirando estrelas
Com luzes que insistem onde
Elas não mais existem.
Neste ser terreno
Treme o amor aos muros
O horror das asas
O calor concreto
O vento, as alturas,
As abstrações
Paixão dos pés
O orvalho.
Na janela,
Partes que me ocultam.
Muros e asas
Eu, muros e asas.
Pôr do sol
O sol preso à copa da árvore
Por um tempo efêmero.
O vento canta,
Os galhos lançam o sol para o horizonte.
Epifania
Fragmentos de areia
Nas mãos repousam
Sutil procura dos lábios
Sopro breve e suave
Deus dissipando-se ao vento.
Nas mãos repousam
Sutil procura dos lábios
Sopro breve e suave
Deus dissipando-se ao vento.
Despertar
Sempre espreitei grandes mistérios
De repente numa suavidade incomum
Teu dedo tocou meu rosto.
Minha deusa...
Isto é o meu corpo
Tomai e comei!
De repente numa suavidade incomum
Teu dedo tocou meu rosto.
Minha deusa...
Isto é o meu corpo
Tomai e comei!
Pronúncias
O amor devora meu tempo
Enquanto o mundo gira insano
E trepidam as multidões ingênuas
Ouço pronunciar-me o amanhecer
Enquanto o mundo gira insano
E trepidam as multidões ingênuas
Ouço pronunciar-me o amanhecer
Estado de Flor
Não sei bem
Seja lá como flor
Estou plantado em sua vida.
Meus tons aurora suas manhãs
De inexplicáveis cores.
Não sei bem
Seja lá como flor
Beija-me.
Seja lá como flor
Estou plantado em sua vida.
Meus tons aurora suas manhãs
De inexplicáveis cores.
Não sei bem
Seja lá como flor
Beija-me.
Pintassilgo
O pintassilgo mansamente
Pousou em minha janela.
Inquieto e saltitante
Voou sem despedidas
Levou consigo meus olhos
Vejo o mundo em asas.
Pousou em minha janela.
Inquieto e saltitante
Voou sem despedidas
Levou consigo meus olhos
Vejo o mundo em asas.
Filho
Amo-te
Diferente de tudo que amei
Permaneço ao teu lado, calado
Sentenciado ao teu sorriso
Teus olhos são linguagens minha.
Amo-te
Como tudo que amei
Medidas infinitas do amor
Que a mim possuo.
Não te amo
Sem que me veja
Amor em dobro
De mim mesmo
Único. Distante.
Quieto em meus braços.
Amo-te, quase que não sendo.
Diferente de tudo que amei
Permaneço ao teu lado, calado
Sentenciado ao teu sorriso
Teus olhos são linguagens minha.
Amo-te
Como tudo que amei
Medidas infinitas do amor
Que a mim possuo.
Não te amo
Sem que me veja
Amor em dobro
De mim mesmo
Único. Distante.
Quieto em meus braços.
Amo-te, quase que não sendo.
Amor ao efêmero
Deus fez do efêmero sua pátria
Ensinou-me a não buscá-lo
Resta nas mãos uma folha
Como o mais santo dos livros.
As formigas,
O conhecem sem consciência.
Decifram as letras veladas
Como cartas de amor.
Insisto em não querer Deus
Esta relva que salta
Colorindo as flores
Compostas por instantes
Sem almejar o céu.
O calor beija seus corpos
E não traz noticias de Deus
Gosto de templos
Ornados de flores
Capturam-me
Esqueço os discursos
A voz que apontam,
Silenciam.
Formigas e flores
São provisórias
Ausentes de verdades
E belas.
Ensinou-me a não buscá-lo
Resta nas mãos uma folha
Como o mais santo dos livros.
As formigas,
O conhecem sem consciência.
Decifram as letras veladas
Como cartas de amor.
Insisto em não querer Deus
Esta relva que salta
Colorindo as flores
Compostas por instantes
Sem almejar o céu.
O calor beija seus corpos
E não traz noticias de Deus
Gosto de templos
Ornados de flores
Capturam-me
Esqueço os discursos
A voz que apontam,
Silenciam.
Formigas e flores
São provisórias
Ausentes de verdades
E belas.
Inverbocifrável indignação
Como susto a língua
Tornou-se apócrifa
Desprendeu-se marginal
Do campo de concentração.
A voz perdida entre montanhas
Transmutando em ironias,
Verdades consumadas.
A imagem refletida no espelho,
Desconhecido.
Prece fervorosa e descrente
Ao deus engano
Haste em nossa c’alma.
Rosto fundido em máscara
Disfarce de alma prostituta
Coabitam em planaltos
Olhos em núpcias
Fugacidade e eloqüências
Urnas que copulam círculos
Ócios e efêmeros.
Poder trino
Rostos pálidos e em cores
De vossas bandeiras
Marcas enrugadas do tempo
Ideias envoltas em faixas
Encerradas em tumbas
Sóis belos e não mereceis punição
O inferno é pouco
Confunde-se com a confraternização
Natalina.
Regresso à casa paterna
Síntese do não almejado
Condenados a vós mesmos
Triste fim.
Tornou-se apócrifa
Desprendeu-se marginal
Do campo de concentração.
A voz perdida entre montanhas
Transmutando em ironias,
Verdades consumadas.
A imagem refletida no espelho,
Desconhecido.
Prece fervorosa e descrente
Ao deus engano
Haste em nossa c’alma.
Rosto fundido em máscara
Disfarce de alma prostituta
Coabitam em planaltos
Olhos em núpcias
Fugacidade e eloqüências
Urnas que copulam círculos
Ócios e efêmeros.
Poder trino
Rostos pálidos e em cores
De vossas bandeiras
Marcas enrugadas do tempo
Ideias envoltas em faixas
Encerradas em tumbas
Sóis belos e não mereceis punição
O inferno é pouco
Confunde-se com a confraternização
Natalina.
Regresso à casa paterna
Síntese do não almejado
Condenados a vós mesmos
Triste fim.
Percepção
Otacílio intrépido e veloz anseia o futuro
Os pés não sofrem às distrações dos olhos.
José, sob a janela
Rabisca a paisagens.
A beleza descansa no último olhar...
O vento varrendo a folha do terreiro
Pateticamente irrepetível.
Ri das nuvens brancas e suas travessuras.
Com pés machucados,
Vive o último momento do dia
Esperando a noite pintar o céu
Como ninguém nunca viu.
Os pés não sofrem às distrações dos olhos.
José, sob a janela
Rabisca a paisagens.
A beleza descansa no último olhar...
O vento varrendo a folha do terreiro
Pateticamente irrepetível.
Ri das nuvens brancas e suas travessuras.
Com pés machucados,
Vive o último momento do dia
Esperando a noite pintar o céu
Como ninguém nunca viu.
Diáspora
Lua cinzenta
Pelo silêncio, o tédio
Se não fosse possível a aurora.
Diáspora...
Rastros movidos a ordens
Cérebros artificiais
Homens desfalcados de si
Compostos e programados.
Relógio...
Tocar no tempo, se é real...
Abstração
À noite
Mistério
Plácidos cantos
Morte em vida
Entre noites e dias
assombros
Pelo silêncio, o tédio
Se não fosse possível a aurora.
Diáspora...
Rastros movidos a ordens
Cérebros artificiais
Homens desfalcados de si
Compostos e programados.
Relógio...
Tocar no tempo, se é real...
Abstração
À noite
Mistério
Plácidos cantos
Morte em vida
Entre noites e dias
assombros
Estado de flor
Palavras me ingratam
O perene intervalo
Possuído de ausência
De qualquer outro momento,
Irmaniza-me aos homens.
Em cada movimento, solenidade.
Em cada ser, um ritual
Dança nos olhos a existência
Em reverência a sua beleza
Altar erguido às núpcias das garças
Assediado pelas essências
Quase em estado de flor.
O perene intervalo
Possuído de ausência
De qualquer outro momento,
Irmaniza-me aos homens.
Em cada movimento, solenidade.
Em cada ser, um ritual
Dança nos olhos a existência
Em reverência a sua beleza
Altar erguido às núpcias das garças
Assediado pelas essências
Quase em estado de flor.
Tua beleza
Por um instante
Tua beleza me assustou
Sinto meu peito ofegante
Eu que de susto sobrevivo
De emoção respiro
Quão comuns são os espantos
Cotidianos, companheiro dos
Meus olhos. Todavia, foste no imo
Compasso causadora incomparável
Dos mais belos desassossegos.
Tua beleza me assustou
Sinto meu peito ofegante
Eu que de susto sobrevivo
De emoção respiro
Quão comuns são os espantos
Cotidianos, companheiro dos
Meus olhos. Todavia, foste no imo
Compasso causadora incomparável
Dos mais belos desassossegos.
Mistério
As estrelas são cacos
Do dia que se refugiam nos céus
Enquanto pássaros noturnos
Banham-se na escuridão
E no vazio batem asas ao abraço luar
A sinfonia dos grilos rompe as presenças
Desprende-se um silêncio imensurável
Da janela, sonolento, leio o mistério
A madrugada beija-me para que eu adormeça.
Do dia que se refugiam nos céus
Enquanto pássaros noturnos
Banham-se na escuridão
E no vazio batem asas ao abraço luar
A sinfonia dos grilos rompe as presenças
Desprende-se um silêncio imensurável
Da janela, sonolento, leio o mistério
A madrugada beija-me para que eu adormeça.
Herança
Arde nos olhos o vento
Que varreu o pó dos cadáveres.
Sobre humanos ergueram-se
Cidadelas e megalópoles
Paralelepípedos turvos,
Lisos e pintados.
Evitaram nossos pés à lama.
Trepidam em bálsamo
Os gritos transformados em ar
Gerações sentenciadas respirarão
Decapitados, mudos e lafredores.
Paginas, letras vermelhas
Alheias a nossa vontade.
Nas mãos, calos ossivos de matanças
Das cavernas à sofisticação ativa e
Atômica
O cuspe sanguinário do beija-flor.
Que varreu o pó dos cadáveres.
Sobre humanos ergueram-se
Cidadelas e megalópoles
Paralelepípedos turvos,
Lisos e pintados.
Evitaram nossos pés à lama.
Trepidam em bálsamo
Os gritos transformados em ar
Gerações sentenciadas respirarão
Decapitados, mudos e lafredores.
Paginas, letras vermelhas
Alheias a nossa vontade.
Nas mãos, calos ossivos de matanças
Das cavernas à sofisticação ativa e
Atômica
O cuspe sanguinário do beija-flor.
Cadê Deus?
Cadê Deus?
Sentado no banco do terreiro
Pernas cruzadas, olhar distante.
Na estrada com a lata na cabeça.
Nas pedras dos rios sujando uns panos.
Emagreceu e tem pele ressecada.
Cadê Deus?
Cozinhando água para
enganar a fome do filho
Chora o vaso seco
Poço sem vida
A vala do riacho.
Sentado com a mão na testa
Olhar no céu
Ouvido em alguém a dizer: Vai chover!
Cadê Deus?
Esperando ser olhado
Mantém-se ainda confiante
Cadê Deus?
Ouvi dizer que ta lá pras brandas do sertão.
Sentado no banco do terreiro
Pernas cruzadas, olhar distante.
Na estrada com a lata na cabeça.
Nas pedras dos rios sujando uns panos.
Emagreceu e tem pele ressecada.
Cadê Deus?
Cozinhando água para
enganar a fome do filho
Chora o vaso seco
Poço sem vida
A vala do riacho.
Sentado com a mão na testa
Olhar no céu
Ouvido em alguém a dizer: Vai chover!
Cadê Deus?
Esperando ser olhado
Mantém-se ainda confiante
Cadê Deus?
Ouvi dizer que ta lá pras brandas do sertão.
Asfixia
De longe se viu ao vento
As peles, estigmas e constelações
A dança dos corpos
Memória prisioneira
Os fantasmas congelados
A história no canto da casa.
De longe se viu ao vento
As pegadas apagadas
A serpente adormecida
Os cordeiros nos quintais.
De longe se viu ao vento
O pensamento coligido
Os ouvidos vencidos
Nos tímpanos a asfixia.
As peles, estigmas e constelações
A dança dos corpos
Memória prisioneira
Os fantasmas congelados
A história no canto da casa.
De longe se viu ao vento
As pegadas apagadas
A serpente adormecida
Os cordeiros nos quintais.
De longe se viu ao vento
O pensamento coligido
Os ouvidos vencidos
Nos tímpanos a asfixia.
Liberdade de menino
Prenderam meu menino
Ele, que ocupado esteve sem finalidades
Que derramava de sua mente o oceano
Pensava com asas e invejava os anjos
O medo da inocência rabiscava a parede
Atravessavam com gemidos e passos.
Prenderam meu menino
Que se lambuzou em cores no jardim
Dizia: vou! E não ia.
Que não tinha memória
Tudo era agora
O céu, o quintal.
Prenderam meu menino
O aprendiz das ausências
Que do fundo salta para alcançar saída
De dentro das palavras, do não entendido.
Prenderam!
Não a natureza ingrata por suas brincadeiras
As cercas que abraçavam o nada
Homem crescidos e distantes
Nos escritórios e duplicatas
Passeatas sem passeios
Ônibus cortinados
Prenderam!
E mal sabiam que meninos
se evaporam ao vento.
Ele, que ocupado esteve sem finalidades
Que derramava de sua mente o oceano
Pensava com asas e invejava os anjos
O medo da inocência rabiscava a parede
Atravessavam com gemidos e passos.
Prenderam meu menino
Que se lambuzou em cores no jardim
Dizia: vou! E não ia.
Que não tinha memória
Tudo era agora
O céu, o quintal.
Prenderam meu menino
O aprendiz das ausências
Que do fundo salta para alcançar saída
De dentro das palavras, do não entendido.
Prenderam!
Não a natureza ingrata por suas brincadeiras
As cercas que abraçavam o nada
Homem crescidos e distantes
Nos escritórios e duplicatas
Passeatas sem passeios
Ônibus cortinados
Prenderam!
E mal sabiam que meninos
se evaporam ao vento.
Condição
Sou prostituta
Ofereço corpo, alma e vida
Núpcias insanas que dilaceram o peito
Excitam partículas que me compõem.
Pelas avenidas a espreita de objetos
Transmudam em intimidades.
Capturo corpos em liberdade
Para torná-los livres.
Curvas, choques, desassossego
Imoral e desumano.
O avesso, humano e trivial.
Em partes de poeira
Um universo de palavra me descreve
Sendo errante e sublime
Sou prostituta
O leito é pó, árvores e riachos
Um instante eterno de prazer
A partícula de tempo irrepetível
Gota exposta ao calor
Dissolvido poeta.
Ofereço corpo, alma e vida
Núpcias insanas que dilaceram o peito
Excitam partículas que me compõem.
Pelas avenidas a espreita de objetos
Transmudam em intimidades.
Capturo corpos em liberdade
Para torná-los livres.
Curvas, choques, desassossego
Imoral e desumano.
O avesso, humano e trivial.
Em partes de poeira
Um universo de palavra me descreve
Sendo errante e sublime
Sou prostituta
O leito é pó, árvores e riachos
Um instante eterno de prazer
A partícula de tempo irrepetível
Gota exposta ao calor
Dissolvido poeta.
Amo-te
Cedo, cantarei o amor
Na cegueira do tempo
Sempre haverá estação
Pois o amor transborda
Nossas vidas e paisagens.
O agora é seu nascente
Sem princípios ébrios
Amo-te sem oferecer-te
Coisa alguma
Se a poesia emudece
Como a noite
As estrelas iluminam
Nosso amor.
Tenho apenas esta noite
A oferecer-te.
Silenciosa e infinita
Silenciosa e perfeita
À tua semelhança.
Esquecida pelo mundo
Amparada nos braços.
O que resta, rabisco de
Chuva no oceano.
Somos totalmente o agora.
Sem culpa e receio, amo-te.
Sem trégua e norte, amo-te
Como os campos floridos
Na infância.
Se tudo é fugaz, amo-te.
Como poema que escorre
Sangue em meu peito e pulsa.
No íntimo instante
Em que o olhar decifra-nos
Amo-te!
Na cegueira do tempo
Sempre haverá estação
Pois o amor transborda
Nossas vidas e paisagens.
O agora é seu nascente
Sem princípios ébrios
Amo-te sem oferecer-te
Coisa alguma
Se a poesia emudece
Como a noite
As estrelas iluminam
Nosso amor.
Tenho apenas esta noite
A oferecer-te.
Silenciosa e infinita
Silenciosa e perfeita
À tua semelhança.
Esquecida pelo mundo
Amparada nos braços.
O que resta, rabisco de
Chuva no oceano.
Somos totalmente o agora.
Sem culpa e receio, amo-te.
Sem trégua e norte, amo-te
Como os campos floridos
Na infância.
Se tudo é fugaz, amo-te.
Como poema que escorre
Sangue em meu peito e pulsa.
No íntimo instante
Em que o olhar decifra-nos
Amo-te!
Comentário do frei Edilson
Não aconselho ao leitor (quem disse que leitor gosta de conselhos?) a ler os versos de Messias bovinamente, ruminando-os, como sugeria Nietsche, mas com a paciência e o olhar de um gato, como sugere Mario Quintana. Pois um poema " não se pega a tiro. Nem a laço. Nem a grito". Não sou eu, aliás, que pego o poema, é ele quem e pega: chega como quem vem do nada, e se instala qual posseiro dentro do meu coração... E me possui,me envolve e me desvela a mim mesmo. Mas que isso, o poema me devolve a mim mesmo. Às minhas raízes e às minhas veredas mais sertanejas:"Cadê Deus?/ Ouvi dizer que está lá pras bandas do sertão". Pois assim é : Messias,por veredinhas oblíquas,nos conduz, sem que disso tivesse intensão, à Deus. "Ficou, assim, em segundo lugar, a impressão de um velado misticismo. No sentido mais amplo desse termo. Nos sentido de alguém que dentro do grande mistério do ser humano se admira e se espanta.Nos entrega o re-sultado deste êxtase. Leia, pois, felinamente os textos que se seguem e veja se não tenho razão.
Frei Edilson
Mente de criança, sempre povoada por figuras mitológicas, seres alados que ninguém mais percebe. Como em terra fértil, as palavras engravidam a mente e os corpos vão tomando formas, as mais inesperadas. Era assim que me sentia, entre estória e outra contada por meu pai. O fato é que algumas palavras tomavam vida dentro de mim. Foi assim que descobri o significado do entardecer. Entardecer, palavra pouco usada, pois em seu lugar era comum os mais velhos dizerem: “boca da noite”. O fim de tarde sempre era para mim, momento de grande espanto. As galinhas como que no ritual procuravam seus cantinhos, as ave-marias despertavam um sentimento fúnebre que nos acompanhava no café. Então, em minha mente de criança, as tardes, pobres tardes, eram tragadas pela “boca da noite”. Sempre impiedosa ela comia bravamente as tardes. Durante toda noite seus fragmentos iluminavam o céu. As estrelas eram cacos da tarde que se espalham pela escuridão. Era preciso tempo para que estes cacos se unissem novamente para que um novo dia acontecesse. E mais uma vez estava ali espantado com esta metáfora da vida. É neste entremeio que a magia do viver vai tecendo suas cores. As formas vão se definindo com as mãos, o olhar e a sensibilidade do Artista. A "boca da noite" é então este momento indeterminado... Não é tarde não é noite... É este exato momento em que Deus pára para contemplar intimamente suas obras. E nós, seus fragmentos, sentimos as lágrimas banhando seu sorriso.
Reinvenção do humano
Quis apenas começar. Não importando o final. Era apenas dentro de mim um forasteiro. Talvez, como um daqueles pedintes que percorrem quilômetros e a próxima parada é apenas mais uma. Ou como criança que enjoa de um brinquedo e se alegra com outro. É essa tal novidade que ao romper meus olhos me muda. Não há maior elogio feito a um homem que dizer: não és o mesmo! Afinal, mudança é a versão feminina de mundo. Ambos andam de mãos dadas.
A pedra não é a mesma. As flores não são. O olhar, o beijo, o toque... Embora, pareçam imutáveis o que há é novidade. A natureza sábia, em um mágico silêncio vai se transfigurando. Tenho uma identificação com o temporal, pois, o eterno não muda, não caminha. Viver a eternidade é viver a mesmice estando preso ao “é”. Estou no tempo oscilante e atraído pelo “sei e não sei” e é somente este estado que me interessa.
As religiões não têm dúvidas porque se afastaram do tempo e por isso perderam a beleza. Desconhecem que a beleza é maior que a verdade e que só o corpo nos humaniza e irmaniza com o mundo.
Seguir a religião que não tem resposta é um desafio para nossa fé. Pois, nos despimos da verdade e abraçamos a religião das metáforas. E então, beberemos a sabedoria dos poetas, pregadores incansáveis das coisas que "não existem".
Tenho uma queda, uma atração pelos deuses gregos. Uma espécie de núpcias tecem nossas relações, eles me evangelizam. Afrodite, a deusa do amor. Onde ela passava nasciam flores e os passarinhos cantavam em sua volta. Amante de Ares, mãe do medo e do terror. Afinal, a vida humana é uma criação afrodisíaca da própria vida. Uma (mas) (per) turbação que vai se tecendo na fragilidade de uma teia, abrigo de amor e do medo. Basta um pôr-do-sol, uma madrugada, uma aurora ou um respiro para que a condição humana seja reinventada. Há um canto redesenhando o rosto, uma metáfora a revelar-nos nas nuvens. As palavras pouco a pouco re-inauguram nossa humanidade.
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